Arte, fisioterapia e doulagem
Gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre como a aproximação com o universo da doula ampliou minha visão sobre o atendimento pré e pós-parto na minha atuação como fisioterapeuta de gestantes, puérperas e mães.
No Brasil, o índice de cesáreas é muito alto, e a medicalização do parto é uma tendência crescente. Em São Paulo, por exemplo, mais de 80% dos partos são cesarianas, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda cerca de 15%. As razões para esse cenário são complexas e fazem parte de um sistema maior, onde o parto é frequentemente visto como um evento perigoso e doloroso. Além disso, consultas pré-natais repetidas podem gerar um efeito nocebo — aumentando a ansiedade e o medo da gestante.
Mas, afinal, a quem interessa essa patologização do parto?
Uma abordagem biodinâmica verdadeira se baseia na compreensão dos processos fisiológicos naturais da mulher, valorizando a conexão entre mãe e bebê. Isso é muito diferente de criar um ambiente controlado e induzido, que convence a mãe — coercitivamente ou sem necessidade — de que o parto natural é arriscado, mesmo para mulheres saudáveis.
Nesse contexto, acredito que a educação perinatal, enriquecida pelo conhecimento que adquiri como doula, é uma alternativa fundamental para oferecer informações qualificadas, permitindo que a mãe tome decisões conscientes. O objetivo não é induzir a escolha pelo parto natural, muito menos fazer a mulher se sentir mal caso escolha a cesárea, mas sim criar condições para que cada mulher construa sua própria narrativa, baseada em suas reais escolhas pessoais. Também não buscamos criar um ideal fantasioso de parto perfeito que leve a comparações desnecessárias entre mães. E certamente estarei com atenção direcionada, para que a trajetória da mulher que está passando por um momento tão sensível seja respeitada e munida de qualquer tipo de violência.
Ressalto ainda que o trabalho de educação perinatal vai muito além de escolher se haverá parto natural ou cesariana. É um processo profundo de conscientização que envolve a história do parto — a luz, o cheiro, o som do ambiente, como será o momento do corte do cordão umbilical e quem estará presente nesse instante tão único. É também um despertar para a importância da amamentação e o apoio necessário para que ela aconteça de forma saudável. É sobre superar momentos difíceis juntos. É sobre quem estará no pós-parto e desde quando, sobre os medos, sonhos, a relação do casal, sobre sexualidade. É sobre criar vínculo e cumplicidade com a família e ser também atravessada e transformada por eles. É sobre transbordar de amor cada vez que um bebê nasce. É sobre desenvolver uma comunidade-aldeia: um ambiente agradável de conviver.
Por isso, meu trabalho busca criar um ambiente acolhedor e integrativo. A fisioterapia oferece um cuidado consistente focado na preparação pélvica, na redução da dor e na reabilitação no pós-parto. A osteopatia, por sua vez, contribui para o equilíbrio corporal global, auxiliando na harmonização psicocorporal, promovendo alívio de tensões, melhora da mobilidade e suporte ao processo de recuperação após o parto.
Lembro-me do estágio numa maternidade, onde senti claramente a falta de acolhimento para as mulheres no pós-parto. O ambiente tinha profissionais despreparadas e carregadas com um vocabulário agressivo perante a condição da puérpera. Uma experiência humanizada nos convida a olhar com mais atenção e respeito para a vida como um fenômeno singular, e não apenas com ações protocolares pré-estabelecidas.
Incluir a arte no meu consultório tem sido fundamental, pois promove momentos de alegria e melhora o bem-estar das gestantes, por meio de práticas como pintura na barriga e dança materna. A arte é um caminho para encantar os mundos e transformar memórias em relicários inesquecíveis. No fundo, conforme nos ilumina Michel Odent, o que está em jogo na arte do nascimento é a nossa capacidade de amar.
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