O corpo não é uma máquina. É uma partitura viva, onde dor, prazer e potência coexistem.

por | maio 29, 2025

Durante séculos, a visão dominante sobre o corpo foi moldada pelo paradigma mecanicista inaugurado por René Descartes. Em sua filosofia, corpo e mente são substâncias distintas: o corpo, como res extensa, é concebido como uma máquina regulada por leis físicas, enquanto a mente, a res cogitans, é a instância do pensamento e da consciência. Essa separação radical transformou o corpo em um objeto: algo que se possui, manipula, conserta — um instrumento ao serviço da razão.

Contra essa lógica dualista, Baruch de Espinosa propõe uma ontologia da unidade. Para ele, corpo e mente são atributos de uma mesma substância. O corpo, longe de ser uma engrenagem isolada, é um campo de afetos — ele sente, é atravessado por forças, e sua potência de agir se modifica em relação ao mundo. Dor e prazer não são apenas sinais, mas modos de existir, expressões da nossa abertura ao encontro com o outro e com o tempo.

Essa compreensão é aprofundada por Maurice Merleau-Ponty, que retoma a centralidade do corpo, mas agora enquanto corpo vivido. Ele não é uma coisa entre coisas, mas a condição mesma da experiência. Para Merleau-Ponty, o corpo não é uma máquina que temos, mas algo que somos

É por meio dele que o mundo se dá — que o visível se encarna, que o tempo se sente, que a dor se torna linguagem e o prazer se torna mundo. O corpo é uma partitura viva: uma escrita contínua de gestos, sentidos, memórias e presenças.

Por fim, Humberto Maturana, com sua teoria da autopoiese, amplia essa visão ao conceber o corpo como um sistema vivo que se produz e se conserva em sua própria dinâmica. O corpo não é um receptor passivo de estímulos externos, mas um criador de sentido. Ele interage com o mundo de forma plástica e relacional, sendo ao mesmo tempo estrutura e experiência, forma e fluxo.

Vejo o corpo como um organismo vivo co-criativo: nele se escrevem continuamente gestos, memórias, dores e desejos. O corpo sente, ressoa, transforma. É matéria sensível e inventiva — não algo que apenas sofre o mundo, mas que o compõe.

Assim, romper com a ideia do corpo-máquina é mais do que um gesto filosófico — é um ato de reconciliação com nossa própria condição encarnada. O corpo é onde habitamos o mundo. Ele sofre, goza, age, resiste. Nele, a dor e o prazer não se anulam, mas coexistem como expressões de uma potência sempre em movimento. O corpo não é peça nem engrenagem: é presença, é paisagem sensível — uma partitura viva que se escreve no compasso da existência.

2 Comentários

  1. João Shigeru Magara

    Excelente matéria Elisa. O nosso corpo ainda é um grande mistério e temos muito que aprender com ele. Acredito que essa conexão ultrapasse os limites do universo.

    • Elisa

      Obrigada! Também acho que sabemos pouco ainda! <3