O que você realmente busca enquanto rola o feed?
Parece que vivemos em um tempo em que a conexão genuína se torna cada vez mais rasa. Na internet, vigiar o outro virou um hábito cotidiano. Para muitos, receber atenção virtual se tornou um ativo necessário — seja para gerar capital, seja como promessa de alcançar a “vida dos sonhos”.
Hoje, o valor do ser está diretamente atrelado à validação e aos likes. Seria sensato dizer que a alegria na internet nasce de uma multidão de aplausos que alimenta o ego exposto? Um ego que anseia por aprovação, muitas vezes, de completos desconhecidos. Mas nunca é suficiente para preencher o vazio interno que nos assola.
A “sociedade do espetáculo” opera sob o controle contínuo da comunicação instantânea. Nela, os limites entre o individual e o coletivo, entre o privado e o público, tornam-se cada vez mais borrados. Estamos tão habituados à espetacularização constante da vida privada que muitas vezes nem a percebemos mais — embora ela siga operando, silenciosa e implacável.
Nosso estilo de vida virou um ativo comercial. Passamos a montar vitrines pessoais com curadoria minuciosa de momentos felizes e de sucesso. Tudo planejado como iscas para adquirir seguidores, clientes, reconhecimento.
As consequências psicológicas e emocionais desse processo reverberam de forma profunda: uma sensação de inadequação crônica, um isolamento silencioso.
É essa a “cultura do espetáculo” descrita por Guy Debord. Nesse cenário contínuo de performance, todos querem ser vistos, posto que quem chama atenção vende mais. Segundo Debord, o espetáculo é a forma que a economia encontrou para se desenvolver para si mesma. Ou seja: não se importa com pessoas, e sim com a manutenção de sua própria engrenagem — a produção contínua de dinheiro. O que une os espectadores não é um sentimento de pertencimento, mas sim a mesma sensação de solidão. Uma plateia virtual de solitários.
Eu mesma uso a internet para divulgar meu trabalho e amo conhecer a beleza de muitos artistas e profissionais do mundo, que só tive acesso pela internet. Em minha caminhada aderi ao branding como ferramenta de autoconhecimento e hoje me divirto com este aprendizado. Fiz aula com profissionais incríveis, de várias partes do mundo, ampliei horizontes. Vislumbrei outras perspectivas como empreendedora podendo criar uma vida autêntica. Assisti pessoas que me inspiram profundamente. Que maravilha que é a internet neste aspecto. Mas confesso: por diversas vezes, senti um vazio enorme nesse ambiente, o olho vagando perdido, e a mente cansada sem conseguir tomar decisões.
É urgente repensar o quanto e como estamos usando essas plataformas. Os dados sobre saúde mental são alarmantes. Muitas vezes, achamos que o problema está em nós, sendo que o nosso contexto também é responsável por aquilo que acontece conosco.
Como nos diz o poeta Francisco Buarque de Holanda “Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.” E ninguém encontra a própria alma rolando o feed.
Exercício:
1) Estabeleça horário para utilizar o seu celular.
2) Pare de se distrair com a vida de pessoas que não te fazem bem.
3) Organize encontros presenciais com pessoas queridas.
Referências:
Sociedade do Cansaço. Byung-Chul Han.
Sociedade do espetáculo. Guy Debord.
Excelente reflexão. Bora fazer conexões com pessoas e bons profissionais pessoalmente. Nada “ainda” substituí o contato humano.
<3